Quando uma população como a brasileira aumenta de tamanho médio, é preciso reavaliar seu modo de vida - do sapato ao mobiliário.

A ergonomista Silvia Volpi, da Agência Brasil de Segurança, responsável pela realização de um congresso mundial sobre o assunto em São Paulo, nesta semana, aponta a necessidade de levar em conta os chamados fora da média. Se 50% da população se concentra nos padrões medianos, 10% igualmente divididos situam-se nos extremos inferiores e superiores e sofrem por falta de opções. Por isso, a tendência, no mobiliário, por exemplo, é oferecer a possibilidade de ajustes. Até as carteiras escolares já seguem essa recomendação, muito visível nas novas mesas para equipamento de informática.

 

 

Na Holanda, país de jovens gigantes, roupas, móveis e ferramentas estão sendo redesenhados levando-se em conta os novos padrões de estatura. O mesmo acontece com a arquitetura das casas, das escolas e dos escritórios.

No Brasil, no entanto, ainda há - com razão - muita reclamação de baixinhos e gigantes. Está em vigor há três anos a Norma Reguladora no 17, do Ministério do Trabalho, com indicações ergométricas para os ambientes de trabalho. Ela tem força de lei, mas ainda é genérica. Não estipula medidas e deixa a definição a cargo dos fabricantes, nem sempre sensibilizados com os problemas de pessoas desajeitadas.

As empresas, por sua vez, lentamente despertam para as mudanças na altura dos consumidores, embora seja esse um fator básico de sucesso das modelagens. As calças de tamanho 16, que nos anos 70 tinham 1 metro de comprimento, nesta década passaram para 1,08 metro, confirmando o que os médicos já sabiam: as pernas são responsáveis por grande parte do crescimento observado. Mas os braços também não ficam atrás.

As mangas das camisas, para a mesma faixa etária dos 16, encompridaram de 50 para 54 centímetros. Os sapatos seguem a mesma tendência. A empresa gaúcha Ortopé, especializada em calçados infantis, alterou seu limite do antigo 34 para até 39, um número adequado para meninos de cerca de 12 anos.

Até a indústria militar tem de estar atenta a detalhes de crescimento. A Fundacentro, órgão do Ministério do Trabalho, recentemente atendeu a uma solicitação da Aeronáutica, cedendo um de seus equipamentos de avaliação ergonômica para estudos de adequação do tamanho dos pilotos a cadeiras ejetáveis. Segue o exemplo da Força Aérea da Inglaterra, onde os pilotos de hoje não poderiam dirigir os velhos Spitfires da Segunda Guerra Mundial. Em engenhos nos quais é vital a relação entre o tamanho do usuário e a otimização do espaço, erros podem resultar em peças não funcionais e, pior do que isso, em desastres.

 

 

 

Há poucos dias, o mesmo Sydnei Brandão, que baseou sua dissertação de mestrado nos recrutas de Campinas, ao comparecer a uma solenidade no quartel local, foi convidado a entrar em um tanque de guerra dos anos 50. De estatura mediana, não conseguiu se acomodar no estreito cockpit feito para os soldados do pós-guerra. Se a tendência de crescimento for mantida, os recrutas do futuro terão ainda mais trabalho.

 

Miriam Ibañez e Gerson Faria

 

 

 

TIME CRESCIDO

Na média, os futebolistas brasileiros estão mais altos

Sob a trave

Os goleiros têm 1,88 m, 8 cm a mais que há 20 anos.

O time

No grupo, a altura é 1,79 m, mas os atacantes têm em média 1,77 m

 

Os anões

Tratamento com hormônio do crescimento em comunidade de Itabaianinha, Sergipe

 

BARREIRA PODEROSA

O crescimento dos atletas das seleções masculinas de vôlei

A geração de prata

Nos anos 80, a altura média dos atletas não superava 1,90 m

 A geração de ouro

Na década de 90, chegou a 1,94 m

 Quase mundial

Dois centímetros separam o time do Brasil da média mundial de 1,96 m

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