O pediatra Antônio de Azevedo Barros Filho, da Unicamp, constata: "A cada geração, os brasileiros são maiores que os pais". O professor campineiro Carmo Gallo Netto, cuja infância foi pobre, não estranha. Ele é mais de 10 centímetros menor do que o filho Jean, de 17 anos, um rapagão bem alimentado, de 1,85 metro. Os especialistas observam que a receita de crescimento dos brasileiros serve também para africanos, árabes e indianos.

Qualquer povo cresce se tiver condições ótimas. Até mesmo os japoneses, considerados mais baixinhos, atualmente estão na média européia. Não chegam, é claro, à invejável condição dos holandeses, que têm, em média, 1,83 metro - 4 centímetros mais que seus pais. Os suecos empatam com noruegueses e dinamarqueses na marca de 1,78 metro, 2 centímetros acima da média de americanos e ingleses e 8 centímetros mais que os brasileiros.

Hormônio de crescimento

Solução para jovens como André Mello, agora mais alto que a mãe.

A tendência de crescimento, aliás, é secular. Uma armadura medieval abrigava um guerreiro de menos de 1,5 metro, um "tampinha" comparado com o 1,74 metro de um soldado da infantaria italiana da atualidade.

 

Uma coisa é a média da população e outra o potencial de cada indivíduo. Nesse caso, mães e pais não devem se preocupar se os filhos não atingiram o padrão de altura de seus colegas de escola. Não adianta forçar porque ninguém cresce além do que pode, por mais que se alimente. Também não adianta fazer ginástica. A prática regular de esportes melhora a postura, especialmente do adulto, porque leva a uma posição mais ereta. Mas não faz crescer. Segundo especialistas, exercícios violentos, como saltos, por exemplo, podem até inibir o crescimento ósseo dos mais jovens.

 

"Na adolescência, meu filho cresceu de repente", recorda dona Maria Cavalcanti de Albuquerque, uma pernambucana de menos de 1,5, ainda espantada com o tamanhão do primogênito, Márcio, 20 anos, de 1,78 metro. Mas o caso não é de se estranhar. A experiência mostra haver duas fases de crescimento: durante a primeira infância e na adolescência. Essa última ocorre dois anos antes nas meninas do que nos meninos, razão pela qual eles ficam temporariamente mais baixinhos do que elas. Curiosamente, o estudo do IBGE mostrou que, nesse mesmo período, as meninas de 18 anos cresceram 4 centímetros, ou 2 centímetros a mais do que os meninos da mesma idade.

Ritmo reduzido

A diminuição do ritmo de crescimento antes da hora é sinal de alerta, diz Marcia Nery.

 

 

Peso e altura podem ser avaliados por critérios nem sempre apoiados em dados inquestionáveis. Desde meados do ano passado, a Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, trabalha em um projeto de escala mundial para corrigir um erro de avaliação freqüente nos consultórios.

O padrão adotado para diagnosticar a evolução do crescimento muitas vezes é o do National Center for Health Statistics, dos Estados Unidos, recomendado pela Organização Mundial da Saúde.

Acontece que esse estudo tomou como base uma comunidade americana homogênea, em que predomina a amamentação artificial e o tamanho é supervalorizado em cada faixa etária.

 

No Departamento de Endocrinologia do Hospital das Clínicas da USP é usada uma tabela própria, baseda em dados paulistas, que os médicos consideram mais confiáveis.

O único problema físico capaz de afetar a altura é a deficiência de hormônio de crescimento, mal que afeta cerca de 1% da população. "A redução da velocidade de crescimento nas fases típicas é o primeiro sinal de que algo não vai bem", afirma a endocrinologista pediátrica Marcia Nery, da USP. Quando o hormônio está em falta, deve ser suprido com ajuda da substância sintética. É o que ocorreu com André D'Ávila Mello, hoje com 20 anos e 1,62 metro. Depois do tratamento, ele superou a mãe, que tem 1,58 metro. Aos 12 anos, quando foi ao médico, era um baixinho de 1,26 metro. Dois anos depois, ganhou 20 centímetros, a tempo de aproveitar o estirão da adolescência para completar o potencial genético. Os médicos advertem, porém, que o hormônio não faz milagres nem amplia o crescimento de jovens com dosagem normal da substância.

 

Necessariamente, quem é alto não é mais atraente, mas a tendência geral está deixando os baixinhos na reserva. O preparador físico do São Paulo Futebol Clube, Moraci Sant'Anna, calcula ter havido nos últimos anos um acréscimo de cerca de 8 centímetros na altura média dos goleiros, tradicionalmente os jogadores mais altos.

Da mesma forma, o ex-técnico da seleção brasileira de vôlei José Roberto Guimarães não tem dúvida de que os jogadores cresceram cerca de 4 centímetros nas décadas de 80 e 90. Nos times femininos, a diferença foi maior. Se antes as atletas eram aceitas a partir de 1,72 metro, agora o limite cresceu para 1,78 metro. O esporte confirma a tendência geral.

 

O fenômeno se repete em uma área mais light, como as agências de modelo. "Hoje não há mais lugar, em nossos books, para jovens iniciantes como foram Bruna Lombardi e Ana Paula Arósio, abaixo do mínimo que se procura: 1,71 metro", afirma Paulo Visani Rossi, da Elite. Ele acrescenta que não há dificuldade de encontrar jovens com essa estatura, e elas são cada vez mais jovens. Com 13 anos, por exemplo, as escolhidas ainda não entraram na puberdade e têm chance de crescer mais 7 centímetros, no mínimo.

Fartura à mesa

Trunfo de jovens como Jean, filho de Darlene e Carmo.

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