24 de agosto de 1998
Quero ser grande
O brasileiro cresceu
com vigor nos últimos anos, confirmando uma
tendência mundial: o aumento de estatura e de
qualidade de vida andam juntos Os brasileiros estão mais altos.
É fácil tirar a prova: basta dar uma voltinha
em qualquer shopping center ou observar a saída de
uma escola para ver como os adolescentes espicharam.
Ninguém mais se surpreende ao constatar que o filho
é muito mais alto que o pai ou o avô.
Mas o fato agora foi comprovado por
estudos bem rigorosos. Um deles, a Pesquisa sobre
Padrões de Vida, que o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) está concluindo
e se prepara para divulgar, mostrou que em menos de dez anos
- de 1989 a 1997 - a população do país
cresceu em média 2 centímetros, ou 0,5
centímetro mais que a dos vizinhos da América
Latina, atingindo uma altura média de 1,70
metro. Diferença
sensível: Márcio, 20 anos, ultrapassou de
longe os pais, Geraldo e Maria, naturais de Passira,
Pernambuco.

Outro trabalho, apresentado nesta semana como tese de mestrado do pediatra Sidney Aparecido Brandão, da Unicamp, demonstra que a estatura dos jovens alistados no serviço militar da região de Campinas aumentou cerca de 8 centímetros em 30 anos. É um crescimento e tanto.
Mais que um dado curioso, esse aumento de
tamanho deve ser saudado como uma ótima
notícia. Segundo especialistas em saúde
pública, a média de altura de uma
população reflete melhor os aspectos de sua
vida, como alimentação, saúde,
habitação, nível de estresse, do que
indicadores convencionais, como o PIB ou a renda per capita.
A descoberta de que um país ficou mais alto tem,
portanto, importantes implicações tanto na
política quanto na economia, além - é
claro - de sugerir mudanças a fabricantes de roupas,
sapatos e móveis. Contrariando o velho
ditado, tamanho é
documento quando se refere a um povo inteiro. Não
é à toa que comunidades como a de
Itabaianinha, no sertão de Sergipe, onde há
grande concentração de anões, preocupam
os especialistas. A média local de habitantes de
estatura muito pequena é 23 vezes maior do que a
brasileira, de um anão por 10 mil habitantes. Apesar
da localização em área de baixo poder
aquisitivo, o que explica a defasagem é,
porém, uma questão genética - a taxa
quase nula de hormônio de crescimento. Nas passarelas As agências só
aceitam candidatas com no mínimo 1,71
metro.

De acordo com o estudo da Unicamp, Campinas pode ser tomada como exemplo de uma cidade brasileira de nível médio onde as condições de saneamento básico, incluindo-se oferta de água potável, melhoraram muito nos últimos anos.
A altura, nesse caso, é uma
conseqüência dessa melhoria. Segundo o pediatra
Sidney Brandão, "a carga hereditária é
fundamental no crescimento, mas pesquisas feitas com
populações similares sugerem a
interferência de condições ambientais na
realização de todo o potencial de altura".
Entre essas condições, leia-se boa
alimentação na infância, calor humano e
qualidade de vida. Esses mesmos fatores também
exercem influência decisiva no outro lado, ou seja, na
diminuição do crescimento da
população. No estudo da Unicamp, recrutas nascidos
no Nordeste, onde as condições de vida ainda
deixam muito a desejar, também cresceram (4
centímetros), porém menos que a média
dos nascidos no Sudeste e no Sul nos últimos 30 anos.
No Japão, no período de 1934 a 1946, em que o
país se envolveu na guerra, o patamar de altura das
crianças de 12 anos caiu de 1,36 metro para 1,32
metro. Nos últimos anos, voltou a crescer.
No esporte Gigantes, como Oscar Schmidt,
deixam de ser exceção em várias
modalidades. A altura também é reflexo
de influências mais sutis. Um estudo realizado na
Inglaterra e na Escócia, com 10 mil crianças
de 5 a 11 anos de diferentes classes sociais, mostrou que as
de menor estatura eram filhos de pais desempregados.

Outra pesquisa, em internatos para meninos na Inglaterra, indicou que os alunos cresciam mais nas férias do que no período letivo, "presumivelmente porque se sentiam mais felizes". A psiquiatra Maria Cristina Lombardo Ferrari, professora da Faculdade de Medicina da USP especializada em crianças e adolescentes, concorda com essa interpretação. Uma vida tranqüila com muito afeto tem, segundo ela, reflexos na estatura.
O crescimento do brasileiro coincide com
avanços registrados nos dados do IBGE. Comparando-se
os anos de 1991 e 1996, eles mostram que a
proporção de domicílios com água
ligados à rede geral aumentou de 70,1% para 77,6%. As
moradias já servidas por rede de esgotos passaram de
35,4% para 40,3%. A expectativa de vida ao nascer, para
ambos os sexos, evoluiu de 62 para 66 anos de 1980 para
1991.

Aumentou também a duração média do aleitamento, de 9,2 meses, em 1986, para 11,8 meses, em 1996. Esse é considerado um fator decisivo para o crescimento humano, talvez o mais importante. Para os primeiros meses de vida ainda não se inventou nada melhor para afastar doenças, diz a nutricionista Maria Antonieta Carvalhaes, da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu.
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